vou guardar as palavras
ditas no meio das noites -as promessas-
para me saber partida e pertencida como uma folha seca
de amendoeira que entra
pela janela e fica no chão da sala, entre as cadeiras vazias e o som da tv desesperada

para as lembranças bonitas
se mexerem no meu corpo
enquanto tu estiver tão longe
eu escreverei como tu me ensinou
eu anoitenço e desconstruo
o que era uma chuva de berros e fotos nuas
em qualquer poema sobre saudade

e das palavras que devastaram a ti e a mim de presenças
não sei o que fazer.

eu guardo a distância dos corpos estirada no fio da memória
quando as tuas mãos acendiam os incensos
e tudo isso se revirava em fardo e luz

vou guardar o teu rosto triste, poeta,
tua cara em máscaras
que faz a mulher mudar a fisionomia e ficar louca
como a barata de clarice em G.H

não guardo o que acaba no mistério estremecido
dos amantes amigos
nem o sempre dilatado
nessa janela que traz
só barulho urbano e vento
gelado.

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