o que sorvo tem gosto é áspero,

deserto molhado respiro impulso

porta aberta não tem nada

dentro (é vazio como são esses dias

carregados de delicadezas

impossíveis de afeto)

de repente o sol nascendo

um circulo no teu retorno esguio

revivo de estrela

universo pequeno estrutura visível

sendo um instrumento e o estribilho

as cigarras mentindo e plantas morrendo

a vida escorrendo

mas a lua é quem gira

e na terra tudo para é só semente e

despedida tudo que foi – enquanto – foi previsto

nos céus carregados dos

continentes desabitados e das chuvas internas

tudo escrito e escancarado

no cemitério dos teus poemas

a palavra é o jazigo

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recaminho e reservo estas horas
a te confundir entre raízes úmidas fora da terra
vejo portão no deserto de alguns pedidos
está soldado
é aço é gelo
teu muro de amores teu nome em homenagem
a todos que foram aqui um poema 

nada além me fascina ou habita
teu silêncio foi o ruído mais doente que amei

devo unir
a crua palavra
tua
alça da minha vida
líquida
estátua noutro corpo
ao teu
de novo um vento
e esse pombo morto
no asfalto quente

espero num salto
invisível do passo
o nosso poema
que é um animal morrendo
um mendigo sorrindo
tuas resistências
conversando
comigo

(e tamanha vontade
desse olhar noturno
no meu peito pequeno)

que mares tu carrega no crânio
que secam no meu desejo
e vão por aí
como um desastre sem perdão
sem encostas num dia
de chuva
numa estrada
de palavras imundas
e barro seco, seco.

enquanto eu transbordo
prendo a respiração no tempo
máximo possível
e quando vencida pelo meu organismo despresível
respiro
e repito
sem nenhuma civilização: ainda é
vida ainda é

dois de outubro

um avião sobre o mar
um rasgo daquela fumaça
partia a palma da
mão

desmedi
o dia dessas verdades
de roupas pela casa
o tronco da árvore
setenças ancoradas
na escada soluço

desembarquei
mas meu pai altivo
pegou todas as malas
pôs no carro
me olhou, com sorriso
“por que ele não te impediu no aeroporto do Rio?”
(procurei no saguão inteiro uma carta
um vestígio…)

passei um tempo
segurando o bilhete
segurando o choro
secando por dentro
umas flores

mas há um percurso
eram tuas as mãos no volante
teu perfil agressivo
mudez na orla
pela cidade pela minha carne
eu não sabia que era secular
o tempo desta ausência
nos rostos

mas eu aprendi
num avanço regressivo
que as embarcações não se despedem e o oceano é deserto e frio
mas ainda é vida

não durmo
que sonhos eu esqueço?
(cabe este verso aqui?)

um cão me olha
ele sabe que nada volta
e nem Amphitrite se lembra mais
do teu barulho
quando adormecia

uma voz tremida, roca de risos
é eco ou zunido?
a profecia cuspida
da tua saliva
depois destes anos
num meridiano
alguma coisa me detém pelo ar um encanto
é mariposa branca
na França (?)

mas não foste tu
o desequilibrio do meu corpo
tu era gravidade e levitação:
o teu olhar sobre a praia
os dedos no meu rosto
essa vontade reliquía
de sempre te pensar inteiro
mesquinho – de movimentos –
do fim ao suicídio
pelo resto dos meus livros

e essa dimensão que me denuncia eu eternizo pras coisas
nulas ao sofrimento
guardiões do meu sossego

mas só um poema
não diz o tamanho da poeira que ronda a minha casa
e é certo que tudo resiste sem virar farelo e
revive nesta parte
que eu não compreendo
enquanto regride

tenho tristeza todas as manhãs
depois de esfregar bem os olhos e pensar
nas coisas que hei de fazer nas minhas horas.


e lembro:
os meus sonhos andam esquecidos e nunca mais
eu poderei contá-los
com ternura (da estrada do tempo e da poeira)
de manhã a remela do outro.


eu vejo secura despedida e poesia morrendo,
nuvem crescendo


de pensar que eu mesma sonho a vida
toda e não
não se viram em dança ou em riso
estes sonhos não consigo falar
eles não são meus
nem teus
só são enquanto não existo.

ouvi os corações acelerados
e a tua voz, baixa, esclareceu:
- existe uma luz nos teus passos,
embora a escuridão caminhe comigo
há muito tempo debaixo de tempestades.


e suando como eu estava
páreo às flores do teu jardim
pensei mais na beleza que te cerca,
dia após dia
nesta rua sem saída em que tu mora
atiro as minhas estrelas mortas
(que brilham impunemente)
ao teu quarto no terceiro andar
simétrico em poeiras antigas
estantes e livros
gavetas velhas
(guardam a minha camisola de seda)
e cadente nos teus braços
agora
revejo teu olhar paradoxo
ao saber
deles tuas imperdoáveis atuações repetidas.


nós somos um poema esquecido
um futuro “talvez no tempo da delicadeza”
onde tu não se recorde mais do contorno
que precisa fazer para formar
uma única letra
nos teus rascunhos inalcançáveis
ao meu lado todas as noites.
e assim te lembres que és um homem
antes de ser poeta.
talvez assim tu sejas a poesia
antes dessa ferida reescrita.

Nota

o fim de tarde hoje foi ensolarado
nem ficou laranja o céu
nem roxo
escureceu tudo assim de uma vez

esses fins sempre habitam algum estranhamento
em nós
sentei na beirada da janela e fiquei
entre os fios que fazem a cidade funcionar
e os telhados de limo e os gatos perdidos
e também entre os pombos que são sempre desprezados.

Nota

recolhe os teus desafetos e te refaça
não em arte
desvia da filosofia, da diferença sobre passados e ventanias
a verdade escarnecida imposta nas entrelinhas
se puderes cata pelo asfalto,
depois da chuva,
a tua carne
e se quiseres junta os teus ossos engessados
e com eles escreve o teu ego sobre as calçadas
e me fere

escuta os poetas e recria avessos
destilados
nestes copos e esquinas
bebe
o teu próprio sangue
mereça a solidão do inverno
e quando fevereiro amanhecer
te cubra de neve

e no deserto dos teus dias
onde tu amas se queimar
sinta de mim, outra vez,
a dor
que a lua (sem saber de nada)
míngua nestes versos
a tua última palavra.

me aceito morrer
não de velas e caixão
mas de tardes negras e mapas
em branco
todos os dias
pela tua delicadeza de canalha
sendo eu o poeta
e tu
este poema

me entranha a eternidade escura e cinza
como teus olhos secos e tua fala tímida.

se formarão para ti a morte e o legado desta literatura
parte
da minha alma e viva a tua poesia

Nota

se te vejo atmosférico

ares dessa terra

teu casulo corpóreo

habitado de vácuos

são via lácteas no teu tronco

imensidões resistindo ao caos

dos meus absurdos

a tua retina cinza

só os teus olhos

grudados na tua cara podem ver

o globo terrestre despencar

rumo ao nada

(carregam as minhas estrelas)

tumultuosas luas subterrâneas

nascem de todos os lugares:

já te evito, céu da minha alma!

esse medo do barulho do mundo

sobre tudo o que requer silêncio

me diz o quanto viajo em tuas naves

e receio as gotas da chuva que pingam

no telhado mas não posso ouvi-las

a terra e os teus ares atmosféricos

denunciam estes silêncios afetados.