devo unir
a crua palavra
tua
alça da minha vida
líquida
estátua noutro corpo
ao teu
de novo um vento
e esse pombo morto
no asfalto quente

espero num salto
invisível do passo
o nosso poema
que é um animal morrendo
um mendigo sorrindo
tuas resistências
conversando
comigo

(e tamanha vontade
desse olhar noturno
no meu peito pequeno)

que mares tu carrega no crânio
que secam no meu desejo
e vão por aí
como um desastre sem perdão
sem encostas num dia
de chuva
numa estrada
de palavras imundas
e barro seco, seco.

Anúncios

enquanto eu transbordo
prendo a respiração no tempo
máximo possível
e quando vencida pelo meu organismo despresível
respiro
e repito
sem nenhuma civilização: ainda é
vida ainda é

dois de outubro

um avião sobre o mar
um rasgo daquela fumaça
partia a palma da
mão

desmedi
o dia dessas verdades
de roupas pela casa
o tronco da árvore
setenças ancoradas
na escada soluço

desembarquei
mas meu pai altivo
pegou todas as malas
pôs no carro
me olhou, com sorriso
“por que ele não te impediu no aeroporto do Rio?”
(procurei no saguão inteiro uma carta
um vestígio…)

passei um tempo
segurando o bilhete
segurando o choro
secando por dentro
umas flores

mas há um percurso
eram tuas as mãos no volante
teu perfil agressivo
mudez na orla
pela cidade pela minha carne
eu não sabia que era secular
o tempo desta ausência
nos rostos

mas eu aprendi
num avanço regressivo
que as embarcações não se despedem e o oceano é deserto e frio
mas ainda é vida

não durmo
que sonhos eu esqueço?
(cabe este verso aqui?)

um cão me olha
ele sabe que nada volta
e nem Amphitrite se lembra mais
do teu barulho
quando adormecia

uma voz tremida, roca de risos
é eco ou zunido?
a profecia cuspida
da tua saliva
depois destes anos
num meridiano
alguma coisa me detém pelo ar um encanto
é mariposa branca
na França (?)

mas não foste tu
o desequilibrio do meu corpo
tu era gravidade e levitação:
o teu olhar sobre a praia
os dedos no meu rosto
essa vontade reliquía
de sempre te pensar inteiro
mesquinho – de movimentos –
do fim ao suicídio
pelo resto dos meus livros

e essa dimensão que me denuncia eu eternizo pras coisas
nulas ao sofrimento
guardiões do meu sossego

mas só um poema
não diz o tamanho da poeira que ronda a minha casa
e é certo que tudo resiste sem virar farelo e
revive nesta parte
que eu não compreendo
enquanto regride