te desejo como a selva
deseja a chuva
e te recebo como o mar
recebe o rio
e a maré que inunda e esvazia
a carne e a comida

e te pertenço toda
porque meu olho te segue
pelas travessias fissuradas
que desembarcam num
segundo de mãos
e de línguas

os sinais de saudade
dessa tua doçura feroz
deformam a cidade em diafragmas envelhecidos
porque te percebo
como a fotografia
revelada pelo indício
das aparências que se constroem
junto aos muros, junto aos pórticos, junto a vida
que se cria e
se estanca.

e rastro é ventania azulada
resto de calma

respiro devagar o tempo
que se alarda
nos dias
porque te sinto como
um infinito de faíscas
que inflama a carne e ilumina a vida

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FUTUROS AMANTES

eu queria te falar uma coisa, Chico.

a afobação é um sentimento muito cru e no seu entorno há um desesperado sentido sem solidez…

o que há de chocante na respiração sem a fala?

quando eu me afobo, eu vejo o que vaza, o escape do que sua e seca. a linha reta de um horizonte, de umas formigas, sem qualquer pressa, com todas as suas ânsias.

quem não se afoba, não sabe emergir de um rio fundo e pegar o ar, não beija o outro num instante e reconhece a saliva, não vigia as memórias para que não se misturem e nunca saberão os projetos impossíveis de um vida serem lançados numa só noite.

SAMPA

não te sei
como quer o tempo
não finda,
só nasce

o tempo atravessa
e se dobra no vácuo
e mostra um estrela
meia noite no céu
de são paulo

é concreto nos teus olhos
viadutos
folhas nos muros
encaro, eu desaguo
a avenida paulista
que brilha, brilha
as crianças vendendo bala
e o reflexo no escuro
da noite poluída,
expressa saliva
eu mesma pálida,
hipnotizada de afetos, definida
sob o céu é tudo
névoa e poeira

nas janelas
mansidão

é macio de marcas
quando encosta,
recebe
reparte a palavra

e se arde pelo vento e voa devagar
por fora e
por dentro
da alma que fala
tudo pelas esquinas
onde te beijei demorada
calcifiquei no meu corpo
a tua vida

agora -como me descobrira. e isso não era nada.

é como saber o sol numa pressa inconformada
e ver a marca da roupa no fim de um dia, no corpo.

a porta que se fachara havia restituído um olhar suave, atento, uma continuidade existencial perdida
qual se recria em outra porta o inalcançável e exato de todas as outras portas e de todos os outros dias…

o tempo não cresce
sobre mim há passagens avulsas
de divisões permanentes
e de repentes estancados
que molduram as horas
sobre os olhos abertos
no nada das vidas
que vai correndo
e suscita a relativa
do crescimento
do sangue do cabelo da unha
do medo
da chuva do sol da palavra
dos homens
a vida vai
saindo pelos becos
pelo sono pela noite pelo rio
pela mãe pelo filho
pela lágrima
pelo grito
das cigarras

e dizem a idade
do momento de viver
mas pode ferver sempre no mesmo de não ser
não querer
e alternar o subjetivo
do mesmo jeito que se deforma
o tempo todo
de vestígios

vou guardar as palavras
ditas no meio das noites -as promessas-
para me saber partida e pertencida como uma folha seca
de amendoeira que entra
pela janela e fica no chão da sala, entre as cadeiras vazias e o som da tv desesperada

para as lembranças bonitas
se mexerem no meu corpo
enquanto tu estiver tão longe
eu escreverei como tu me ensinou
eu anoitenço e desconstruo
o que era uma chuva de berros e fotos nuas
em qualquer poema sobre saudade

e das palavras que devastaram a ti e a mim de presenças
não sei o que fazer.

eu guardo a distância dos corpos estirada no fio da memória
quando as tuas mãos acendiam os incensos
e tudo isso se revirava em fardo e luz

vou guardar o teu rosto triste, poeta,
tua cara em máscaras
que faz a mulher mudar a fisionomia e ficar louca
como a barata de clarice em G.H

não guardo o que acaba no mistério estremecido
dos amantes amigos
nem o sempre dilatado
nessa janela que traz
só barulho urbano e vento
gelado.

quando a temporada
das permanências me
corre no ventre
como são as gaivotas
dos rios no subúrbio
eu fico toda quieta
suo por dentro
e respiro sem impulso
a inverdade dos acontecimentos
que vão matando
de farsas e de aversões
as estrelas
junto com a fome
dos desejos secretos
e dos sonhos que vão
circulando nos corpos
e grudando nos olhos
as poças do momento

vivo o universo mudo
que estremeço a febre das noites
anunciadas num clarão de sol
de espíritos quietos
ou na multidão que avança
sem cortar o espaço que
unifica os tempos e desfigura
a casa

atrás das portas
trancadas
não há nada que não esteja morto

dentro d’uma casa vazia
há a eletricidade em sentido
offline
e ruídos engomados
de intelecto castrado

há também
tudo que morreu
antes dos cômodos preenchidos
dos copos de vidro
das gavetas fechadas
muito houve
quando não havia retratos
na estante
e gemidos bem gozados

então
a porta está aberta
e os objetos da memória
espremidos no contra laudo
com a informação em negrito
todas as letras altas
nenhuma palavra afirmava
que essa casa
nunca foi habitada
e se manteve sempre viva