FUTUROS AMANTES

eu queria te falar uma coisa, Chico.

a afobação é um sentimento muito cru e no seu entorno há um desesperado sentido sem solidez…

o que há de chocante na respiração sem a fala?

quando eu me afobo, eu vejo o que vaza, o escape do que sua e seca. a linha reta de um horizonte, de umas formigas, sem qualquer pressa, com todas as suas ânsias.

quem não se afoba, não sabe emergir de um rio fundo e pegar o ar, não beija o outro num instante e reconhece a saliva, não vigia as memórias para que não se misturem e nunca saberão os projetos impossíveis de um vida serem lançados numa só noite.

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SAMPA

não te sei
como quer o tempo
não finda,
só nasce

o tempo atravessa
e se dobra no vácuo
e mostra um estrela
meia noite no céu
de são paulo

é concreto nos teus olhos
viadutos
folhas nos muros
encaro, eu desaguo
a avenida paulista
que brilha, brilha
as crianças vendendo bala
e o reflexo no escuro
da noite poluída,
expressa saliva
eu mesma pálida,
hipnotizada de afetos, definida
sob o céu é tudo
névoa e poeira

nas janelas
mansidão

é macio de marcas
quando encosta,
recebe
reparte a palavra

e se arde pelo vento e voa devagar
por fora e
por dentro
da alma que fala
tudo pelas esquinas
onde te beijei demorada
calcifiquei no meu corpo
a tua vida